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Assistindo à menina que foi violentada por mais de 30 homens num programa de tevê, eu não consigo deixar de pensar. É egoísta, em meio à tamanha tragédia, eu ainda ter tempo de lembrar das inúmeras mulheres que eu já vi passarem por situações de assédio no meu dia a dia. Dos casos de estupro que eu já ouvi. É triste porque eu, moradora da baixada fluminense, no Rio de Janeiro, sempre acabo ouvindo casos de assédio ou estupro, não só nos subúrbios, mas também na zona sul. No subúrbio, no entanto, há uma certa ‘naturalização’ do ato de violência, há mais medo, mais desinformação. Lembro-me da frase que ouvi numa das minhas séries favoritas, em que a mãe da personagem principal, ao ser confrontada pela filha, que foi estuprada quando mais jovem, disse, resignada: “Os homens são assim minha filha, pegam o que querem”. E essa frase mexeu muito comigo, porque mesmo fora da ficção, ainda é verdade. Apesar de tudo, ainda não me sinto dona do meu corpo. Sou feminista, estudante, mas aí eu percebi que o estudo te ajuda a desviar de algumas armadilhas que o machismo te impõe, mas não todas. Têm algumas que você simplesmente não consegue se safar por mais empoderada e forte que você seja. Eu consigo me livrar do machismo sutil, por exemplo, não me sinto mal por não ter um corpo padrão, igual as revistas falam. Mas o estupro, o exercício pleno do patriarcalismo sobre o meu corpo, esse aí atinge a todas, indiscriminadamente. Não importa se você é estudante, se você é doutora, professora, advogada, faxineira, costureira… O estupro é uma das violências machistas que eu não tenho controle. E aí eu me sinto um nada. O que dá o direito a um homem de achar que pode me forçar a fazer qualquer coisa? Que direito é esse, dado a 30 homens, a forçar uma moça a fazer qualquer coisa? Vi a entrevista dela, e não pude não me emocionar quando ela disse que só tomou coragem para denunciar depois que viu que ‘os movimentos de mulheres’ já haviam denunciado tantas vezes, dentre elas a minha denúncia (mais de 800!). Ela disse que ia permanecer em silêncio. Ela ia ficar com aquele trauma o resto da vida, ia guardar, ia sufocar. Ia calar, consentir. No entanto, a gente ajudou a abrir uma brecha. Eu, você, que convocou as amigas, que denunciamos! Que calou a boca de homem que acha que tem direito sobre nosso corpo, que ela fez por merecer. É triste pensar que esse não será o último caso, mas eu já me sinto aliviada por termos ajudado uma moça a não se calar diante de tamanha brutalidade, e eu também me sinto aliviada pela maioria dos seres humanos que conheço reconhecerem que foi uma barbárie, e verem a pessoa e a violência cometida contra a mesma, antes de analisar o tamanho da roupa.Ninguém vai nos calar, nunca mais.

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