Afim de fim

Não tem um dia que eu não tente ser uma pessoa melhor. Às vezes me divido entre ser uma melhor versão de mim mesma e continuar fiel a quem sou. Não sei até que ponto tentar melhorar me torna uma versão falsificada de quem eu era, afinal, ninguém é perfeito. Vez ou outra ‘enfio o pé na jaca’ e falo coisas como se não existisse uma capa protetora ao redor das palavras. Palavras magoam, e vivemos numa sociedade em que uma pequena mudança de palavra, de significado ou mesmo de interpretação pode fazer diferença. Entretanto, às vezes, me apego ao genuíno. Ao que realmente é. Alguém que está falando algo que não acho correto, e ao invés de corrigir sendo uma versão melhorada de mim mesma, sendo compreensiva e ouvinte, me utilizo de palavras cortantes para mostrar o óbvio. Nem sempre consigo ser essa versão que coloquei na minha cabeça de quem eu deveria ser. Deveria. Futuro do pretérito do indicativo.

Às vezes só quero ser a boa e velha eu. Com os mesmos defeitos, mesmas qualidades, nada de muito novo. Os livros que eu li me ensinaram que eu deveria me exaltar por quem eu era. Que cada um é precioso e que devemos acreditar que o melhor está por vir. Queria que a minha vida fosse um filme de comédia romântica ou de colégio (tipo Meninas Malvadas, sabem como?), em que o final é esperado, é desejado, é certo. Eu sou uma pessoa desejosa de finais. Finais felizes. Vocês não sabem quantas vezes quis dar uma voltinha até o futuro e ver como as coisas serão. Com quem eu estarei, quem permaneceu, quem foi embora, quem morreu e quem nasceu. A vida é feita de mudanças, mas eu não as entendo às vezes.

Eu adoro ler todos os meus livros. Releio eles com frequência, não gosto dos novos. Começo a ler, acho interessante a história, mas me irrita ainda não saber o final. Vejam que esse é o testemunho de uma pessoa extremamente ansiosa e que precisa saber o final das coisas. Que já se magoou muito mas não quis ver final, quis ficar em separado até da contagem do tempo, porque não queria saber o final… Já vi começos lindos, que se tornaram finais. Vi finais lindos, que compensaram os começos ruins. Para mim, como uma pessoa ansiosa e sem vergonha nenhuma em admitir isso, saber o final das coisas é essencial.

Queria acreditar em videntes ou ter alguma religião que me dissesse exatamente qual vai ser o meu final, e o final do mundo (acredito em vida após a morte principalmente por egoísmo, não quero que minha vida acabe e tudo se apague do nada, quero que se prolongue pela eternidade, quero ver ainda um pouco mais de tudo). Queria saber porque releio meus livros sempre, porque sempre vejo os mesmos filmes, ou porque não gosto de experimentar coisas novas. Sou o oposto do que uma pessoa verdadeiramente saudável e normal deveria ser, mas eu gosto saber dos finais, de como as coisas terminam. Tenho medo de experimentar coisas novas e elas não terminarem bem. Apesar de fazer isso, já fiz e refiz os caminhos da vida dezenas de vezes. E isso foi bom. Se permanecesse com a mesma ideia de profissão que tinha na infância, iria ser uma cantora muito mal sucedida. Ou uma modelo.

O final da minha história, eu ainda não sei. Também, pudera, tenho apenas 20 anos de idade, faltando pouco mais de dois meses para minha próxima volta ao redor do sol. Novas histórias, novos finais que vão surgindo, conforme eu vou traçando o bordado da minha própria vida. O bom, é que não estamos condenados a nenhum momento a ter o final que nos está destinado agora. Se eu quiser, posso me mudar para Paris amanhã e recomeçar tudo como uma socialite moderna. Seria um ótimo final!

Só falta-me o dinheiro.

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