A Grande Verdade

Caso sejamos desatenciosos e deixemos essa chance maravilhosa que a vida nos deu ir embora, saiba que você é e sempre vai ser a pessoa que eu mais amei em toda a minha vida. E eu não tenho medo de dizer isso com tão pouca idade. Vai continuar sendo verdade até eu ter 100 anos. O hiato da minha vida sem você vai ser prazeroso e vai ter boas coisas e lembranças, eu sei disso. O hiato da sua vida sem mim também. Teremos e viveremos boas coisas, independentemente do que venha a acontecer. No entanto, no fundo, sempre saberemos da verdade. Aquela verdade. Que fica no canto mais escuro do coração junto com nossos medos de infância, nossos pequenos traumas diários que acumularam e se tornaram uma espécie de tampa. Ali. Ali a verdade permanecerá e ficará o resto de nossas vidas. Fomos marcados. E, independentemente do que viermos a fazer, independentemente de amarmos outras pessoas ou não ao longo da vida, sabemos que a grande verdade estará ali para quem quiser ver ou ouvir. Esconderemos com nossos compromissos de adulto, nossos casamentos que serão até bem razoáveis considerando tudo, nossos amigos que já terão esquecido que passamos pela vida um do outro. Esconderemos com todos os recursos que essa vida moderna nos proporciona, mas nós saberemos. Aquela imagem que passa pela cabeça por um milésimo de segundo. Como será que está? Será que cortou o cabelo? Será que teve filhos? Será que parou de comprar o shopping inteiro quando está chateada? Será que parou de ressonar? Será que ainda pensa em mim? Será?

Carta ao amor que partiu

Antônia,

Hoje soube que você faleceu, e foi triste saber que o mundo não terá mais a oportunidade de conhecer essa pessoa maravilhosa. Eu penso que você tinha uma sensibilidade tão grande e um coração maior ainda, e até o carteiro que você atendia tão amorosa levou um pedacinho de você com ele (mal sabe ele que você só estava esperando o seu livro chegar). Antônia, é difícil viver num mundo em que você não faz mais parte. Mais ainda, é difícil explicar para as pessoas como me sinto, porque, para ser sincero, ainda não senti nada. Estou em êxtase, e tentando me agarrar às coisas boas que você me trouxe. Ainda não entendi que você morreu. E escrevo essa carta para tentar ficar mais perto de você, aguardando que tudo não passe de uma brincadeira de péssimo gosto e você chegue mais cedo a nossa casa e leia esta carta; em seguida, quero que pule na cama como você sempre faz (sem tirar os sapatos, e isso me deixa furioso). Hoje, em especial, eu não ficaria furioso. Eu ficaria feliz, Antônia. Em te ver sorrir de novo. O seu cheirinho tão peculiar, apesar de sempre perfumada com ótimas fragrâncias, eu consigo sentir. Até no escuro dá pra te ver, e até numa perfumaria inteira eu conseguiria identificar você, pelo seu cheiro peculiar: uma mistura de amaciante de roupas, café e shampoo de lavanda. Uma mistura incrível é o seu cheiro.

E pensar que ontem tínhamos brigado, e você saiu sem falar comigo para ir ao trabalho. Você sofreu um acidente que não foi sua culpa. Não odeio quem estava dirigindo o outro carro. Ele sobreviveu, e até na hora da morte, Antônia, você foi generosa. Perguntou se ele estava bem a caminho do hospital, já na maca. Ele me ligou desesperado perguntando o que eu era seu. Eu precisei pensar por alguns segundos para responder, porque sou tanta coisa seu: sou seu amigo, seu namorado, seu abraço, babá e também faxineiro (você deixa um furacão por onde passa!). Disse, por fim, que era seu namorado,porque era assim que a sociedade quer que eu responda.

A sociedade vai querer que eu siga em frente, e eu pretendo fazer isso, afinal, preciso manter uma Imagem. Se você estivesse aqui, provavelmente riria de mim, porque você sempre foi contra qualquer tipo de convenção social, menos o casamento. Eu não te entendo, Antônia. E sempre foi um prazer não te entender. E, sempre terá sido, um prazer te conhecer. Você foi minha por exatos 7 anos, e não poderia ter sido mais feliz ao seu lado. Eu te amei por 7 anos presencialmente, e te amarei pelo resto da minha vida à distância. Prefiro pensar que você foi recrutada pela NASA a uma missão no espaço e te encontrarei daqui a uns anos (depende do tempo-espaço do planeta que você estará, que nem naquele filme Interespacial com aquele cara que você acha bonitão). Você adorou o filme do início ao fim, e eu só queria que acabasse logo. Sabe que não gosto de coisas que não são reais. Agora, Antônia, eu acredito em qualquer coisa que me faça pensar que vou te ver de novo.

Espero que você esteja se alimentando, dizem que no espaço os astronautas comem muito mal. Em breve, eu te encontro. Não sei quantos anos eu vou ter, nem mais o que eu vou ter feito na vida, lembra do Plano? Sim, o Plano. Eu tinha tudo definido na cabeça mas agora não sei mais. Vou seguir com o Plano porque sem isso minha própria existência estaria inútil agora. Te darei muito orgulho! O pessoal da editora vai me ligar e vou conseguir lançar meu livro. Não é sobre você o livro, mas o segundo, com certeza será. Usarei um nome fictício para não te expor, sei que você odeia ser o centro das atenções (mas ao mesmo tempo ama).

Não vou ao seu velório porque acho muito mórbido, você lutou muito para viver e você não merece que se despeçam de você com tristeza. Você era alegria, e eu sempre te falava isso. Eu tive sete anos pra conviver com você, e foram de longe os melhores anos da minha vida. Te amei em todos os momentos, até nos que você me enlouqueceu (você fazia com frequência), mas eu não ligava, nunca liguei. Na verdade, queria voltar nos momentos que brigamos e interromper tudo com um grande e longo abraço. Você provavelmente não entenderia nada e ficaria tentando se soltar, espumando de raiva. Mas eu não ia deixar. Só eu sei a falta que esse abraço vai me fazer.

Com amor, ou não

Henrique

30

Assistindo à menina que foi violentada por mais de 30 homens num programa de tevê, eu não consigo deixar de pensar. É egoísta, em meio à tamanha tragédia, eu ainda ter tempo de lembrar das inúmeras mulheres que eu já vi passarem por situações de assédio no meu dia a dia. Dos casos de estupro que eu já ouvi. É triste porque eu, moradora da baixada fluminense, no Rio de Janeiro, sempre acabo ouvindo casos de assédio ou estupro, não só nos subúrbios, mas também na zona sul. No subúrbio, no entanto, há uma certa ‘naturalização’ do ato de violência, há mais medo, mais desinformação. Lembro-me da frase que ouvi numa das minhas séries favoritas, em que a mãe da personagem principal, ao ser confrontada pela filha, que foi estuprada quando mais jovem, disse, resignada: “Os homens são assim minha filha, pegam o que querem”. E essa frase mexeu muito comigo, porque mesmo fora da ficção, ainda é verdade. Apesar de tudo, ainda não me sinto dona do meu corpo. Sou feminista, estudante, mas aí eu percebi que o estudo te ajuda a desviar de algumas armadilhas que o machismo te impõe, mas não todas. Têm algumas que você simplesmente não consegue se safar por mais empoderada e forte que você seja. Eu consigo me livrar do machismo sutil, por exemplo, não me sinto mal por não ter um corpo padrão, igual as revistas falam. Mas o estupro, o exercício pleno do patriarcalismo sobre o meu corpo, esse aí atinge a todas, indiscriminadamente. Não importa se você é estudante, se você é doutora, professora, advogada, faxineira, costureira… O estupro é uma das violências machistas que eu não tenho controle. E aí eu me sinto um nada. O que dá o direito a um homem de achar que pode me forçar a fazer qualquer coisa? Que direito é esse, dado a 30 homens, a forçar uma moça a fazer qualquer coisa? Vi a entrevista dela, e não pude não me emocionar quando ela disse que só tomou coragem para denunciar depois que viu que ‘os movimentos de mulheres’ já haviam denunciado tantas vezes, dentre elas a minha denúncia (mais de 800!). Ela disse que ia permanecer em silêncio. Ela ia ficar com aquele trauma o resto da vida, ia guardar, ia sufocar. Ia calar, consentir. No entanto, a gente ajudou a abrir uma brecha. Eu, você, que convocou as amigas, que denunciamos! Que calou a boca de homem que acha que tem direito sobre nosso corpo, que ela fez por merecer. É triste pensar que esse não será o último caso, mas eu já me sinto aliviada por termos ajudado uma moça a não se calar diante de tamanha brutalidade, e eu também me sinto aliviada pela maioria dos seres humanos que conheço reconhecerem que foi uma barbárie, e verem a pessoa e a violência cometida contra a mesma, antes de analisar o tamanho da roupa.Ninguém vai nos calar, nunca mais.

Ode Feminazi

 

Era demais para ele

Ela não ser sua

Ela era do mundo

E isso ele não aceitava

Ela era brava

Nunca abaixaria a cabeça para ninguém

Ele não entendia

Aprendeu desde neném

Mulher tem que abaixar a cabeça

A saia

Abaixa

Ela olhava firme

Ele se assustava

Que mulher era essa, meio ousada

Continuou como se fosse nada

Ela tá lendo demais

Tá meio avoada

Daqui a pouco volta a ser só de casa

Começou a trabalhar

Acha que manda em algo

Queria que ela caminhasse atrás

E não ao lado

Ela era da igreja

Agora abandonou o culto

Só anda de short curto

E pavio mais ainda

Não tô entendendo

São as amigas da faculdade?

Ih, rapaz

São tantas as coisas

É o medo de andar na rua

É o medo de morrer

É o medo do estupro

É o medo de sofrer

Aí ela olha pro lado

E vê que só depende dela

E das irmãs

Se livrar do patriarcado

E ser somente dela

Sem donzela

Cinderela

Bela, sem Fera

Ser ela

Com estria, celulite

O que tiver

Se ela quiser se embelezar

Vai no salão

Mas não pra encontrar João

Por ela

Se ela não quiser se embelezar

Fica em casa, vê tevê

Salão tá caro com essa crise

Procê ver

Mulher tem que ser o que quiser

Não importa como

Nem onde

Não tem que ter competição

Contra o patriarcado

Somos a revolução

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Afim de fim

Não tem um dia que eu não tente ser uma pessoa melhor. Às vezes me divido entre ser uma melhor versão de mim mesma e continuar fiel a quem sou. Não sei até que ponto tentar melhorar me torna uma versão falsificada de quem eu era, afinal, ninguém é perfeito. Vez ou outra ‘enfio o pé na jaca’ e falo coisas como se não existisse uma capa protetora ao redor das palavras. Palavras magoam, e vivemos numa sociedade em que uma pequena mudança de palavra, de significado ou mesmo de interpretação pode fazer diferença. Entretanto, às vezes, me apego ao genuíno. Ao que realmente é. Alguém que está falando algo que não acho correto, e ao invés de corrigir sendo uma versão melhorada de mim mesma, sendo compreensiva e ouvinte, me utilizo de palavras cortantes para mostrar o óbvio. Nem sempre consigo ser essa versão que coloquei na minha cabeça de quem eu deveria ser. Deveria. Futuro do pretérito do indicativo.

Às vezes só quero ser a boa e velha eu. Com os mesmos defeitos, mesmas qualidades, nada de muito novo. Os livros que eu li me ensinaram que eu deveria me exaltar por quem eu era. Que cada um é precioso e que devemos acreditar que o melhor está por vir. Queria que a minha vida fosse um filme de comédia romântica ou de colégio (tipo Meninas Malvadas, sabem como?), em que o final é esperado, é desejado, é certo. Eu sou uma pessoa desejosa de finais. Finais felizes. Vocês não sabem quantas vezes quis dar uma voltinha até o futuro e ver como as coisas serão. Com quem eu estarei, quem permaneceu, quem foi embora, quem morreu e quem nasceu. A vida é feita de mudanças, mas eu não as entendo às vezes.

Eu adoro ler todos os meus livros. Releio eles com frequência, não gosto dos novos. Começo a ler, acho interessante a história, mas me irrita ainda não saber o final. Vejam que esse é o testemunho de uma pessoa extremamente ansiosa e que precisa saber o final das coisas. Que já se magoou muito mas não quis ver final, quis ficar em separado até da contagem do tempo, porque não queria saber o final… Já vi começos lindos, que se tornaram finais. Vi finais lindos, que compensaram os começos ruins. Para mim, como uma pessoa ansiosa e sem vergonha nenhuma em admitir isso, saber o final das coisas é essencial.

Queria acreditar em videntes ou ter alguma religião que me dissesse exatamente qual vai ser o meu final, e o final do mundo (acredito em vida após a morte principalmente por egoísmo, não quero que minha vida acabe e tudo se apague do nada, quero que se prolongue pela eternidade, quero ver ainda um pouco mais de tudo). Queria saber porque releio meus livros sempre, porque sempre vejo os mesmos filmes, ou porque não gosto de experimentar coisas novas. Sou o oposto do que uma pessoa verdadeiramente saudável e normal deveria ser, mas eu gosto saber dos finais, de como as coisas terminam. Tenho medo de experimentar coisas novas e elas não terminarem bem. Apesar de fazer isso, já fiz e refiz os caminhos da vida dezenas de vezes. E isso foi bom. Se permanecesse com a mesma ideia de profissão que tinha na infância, iria ser uma cantora muito mal sucedida. Ou uma modelo.

O final da minha história, eu ainda não sei. Também, pudera, tenho apenas 20 anos de idade, faltando pouco mais de dois meses para minha próxima volta ao redor do sol. Novas histórias, novos finais que vão surgindo, conforme eu vou traçando o bordado da minha própria vida. O bom, é que não estamos condenados a nenhum momento a ter o final que nos está destinado agora. Se eu quiser, posso me mudar para Paris amanhã e recomeçar tudo como uma socialite moderna. Seria um ótimo final!

Só falta-me o dinheiro.